A versatilidade do gel de plasma

A versatilidade do gel de plasma

Compartilhar

Rubelisa Cândido Gomes de Oliveira traz uma seleção de artigos com indicações e informações importantes sobre o uso do gel de plasma.

O gel de plasma é estudado há mais de 20 anos e já foi aplicado em diversos procedimentos cirúrgicos e estéticos. É um produto autógeno, não imunorreativo, extremamente rico em fatores de crescimento que, quando bem processado, pode trazer altos benefícios cicatriciais e de hemostasia.

Sua versatilidade e acessibilidade técnica fazem com que seja aplicado nas mais diversas situações em estética e cosmetologia: reparo de feridas, preenchimento dérmico de cicatrizes por trauma ou acne, rejuvenescimento facial, tratamento de estrias, aumento de volume e qualidade capilar.

Entre os hemoderivados mais estudados para esta finalidade, podemos destacar quatro subconjuntos: o plasma rico em plaquetas (PRP); o plasma rico em plaquetas e leucócitos (L-PRP); a matriz de fibrina rica em plaquetas (PRFM) e a fibrina rica em plaquetas e leucócitos (L-PRF).

O primeiro é o mais comumente usado. Ativadores de plaquetas, como trombina ou cloreto de cálcio, são as substâncias usadas para ativar o PRP. A descrição dos métodos para alcançar cada um desses tipos pode ser encontrada na literatura.

Diante dessas opções, o mais importante é o conhecimento das propriedades de cada concentrado e sua aplicação clínica com embasamento científico. Apesar de simples e de custo acessível, é uma técnica que necessita de equipamentos e materiais específicos, mesmo que o produto principal seja o próprio sangue retirado do paciente.

A manipulação correta e a separação precisa do sobrenadante, que realmente interessa ao procedimento, fazem toda a diferença no resultado. Por isso, nunca se aventure.

Antes de aplicar o gel de plasma ou mesmo a cola de fibrina, em qualquer que seja a indicação, saiba bem como proceder e garantir a satisfação do seu paciente.

O uso de plasma rico em plaquetas autógeno (gel de plaquetas) e plasma pobre em plaquetas autógenas (cola de fibrina) em cirurgia estética

Man D, Plosker H, Winland-Brown JE. The use of autologous platelet-rich plasma (platelet gel) and autologous plateletpoor plasma (fibrin glue) in cosmetic surgery. Plast Reconstr Surg 2001;107(1):229-37 (discussion 238-9).

Por que é interessante: Trata-se de um artigo pioneiro na investigação entre plasma gel e cola de fibrina para uso cosmetológico. É um artigo de 2001, que trouxe para o âmbito científico a discussão sobre a possibilidade do uso desses dois materiais autógenos para alcançar e manter a hemostasia na cirurgia estética. Os autores ponderam que os cirurgiões plásticos já demonstravam interesse considerável em algum tipo de cola biológica que ajudasse a obter hemostasia e selamento das superfícies de feridas. As vantagens potenciais do uso de tais substâncias incluiriam prevenção de hematoma, redução do tempo cirúrgico, eliminação da necessidade de drenos, redução da tensão nos retalhos e menor tempo de recuperação. Interessantíssimo entender a introdução do PRP e do plasma pobre em plaquetas (PPP) na cirurgia estética.

Desenho experimental: Um total de 20 pacientes (18 mulheres e dois homens), de 25 a 76 anos de idade, foi a amostra deste estudo clínico experimental. A maioria passou por procedimento de lifting de face e pescoço. Foi retirado 90 cc de sangue em dez de 20 casos e 180 cc nos dez restantes. Esta quantidade de sangue foi suficiente para produzir 30 cc de PPP e 60 cc de PRP. Os agregados foram combinados com uma solução de trombina-cloreto de cálcio para produzir cola de fibrina autógena e gel de plasma. Para cada paciente, uma área do leito sob o retalho cutâneo recebeu a cola de fibrina mantida ao menos três minutos após o encerramento do sangramento, quando então o plasma gel era depositado sobre a ferida para melhorar e acelerar a cicatrização.

Os achados: Todos os 20 casos responderam positivamente à aplicação de cola de fibrina e gel de plasma.

Conclusão: Este estudo demonstrou que o uso de cola de fibrina como agente hemostático, bem como o uso do gel de plasma como agente para reparo e regeneração tecidual, resultou em melhores resultados cirúrgicos. Além disso, trata-se de uma técnica relativamente fácil, segura, reproduzível e de custo moderado.

Artigo original disponível em: https://bit.ly/2C1JWrb.

Revisão sistemática sobre o uso do plasma rico em plaqueta em estética dermatológica

Leo MS, Kumar AS, Kirit R, Konathan R, Sivamani RK. Systematic review of the use of platelet-rich plasma in aesthetic dermatology. J Cosmet Dermatol 2015;14:315-23.

Por que é interessante: Revisões sistemáticas bem-feitas são sempre um bom ponto de partida para quem quer ter uma noção mais ampla e, ao mesmo tempo, científica sobre um assunto. Além de conceituar e descrever a técnica, o estudo resume suas aplicações clínicas. Este artigo é uma revisão que buscou sistematicamente estudos clínicos e relatos de casos sobre o uso de PRP para o tratamento de diferentes condições, entre elas: alopecia androgenética, cicatrizes persistentes, cicatrizes acneicas, rejuvenescimento de pele, preenchimento dérmico e estrias por distensão ou crescimento. Apesar de não ser uma revisão sistemática baseada em ensaios clínicos randomizados, apresenta uma visão panorâmica básica para profissionais que atuam nesta área.

Desenho experimental: Um levantamento sistemático foi realizado nas principais bases de dados: PubMed, Embase e Web of Science. Foram incluídos estudos publicados em inglês sobre a aplicação de PRP em procedimentos de dermatologia estética para cabelo, pele, cosmética, unha e alopecia. Ensaios clínicos e relatos de casos foram selecionados. Palavras-chave utilizadas: “dermatol” ou “hair” ou “skin” ou “cutaneous” ou “cosmetic” ou “nail” ou “alopecia” ou “wound” ou “burns” ou “scar” ou “keloid” ou “hypertrophic”.

Os achados: Um total de 1.323 artigos foram revisados e 22 foram selecionados de acordo com os critérios de inclusão descritos no paper.

  • Aplicações capilares (alopecia androgênica) – melhora no volume e qualidade;
  • Cicatrizes tratadas com injeção de gordura e PRP – descrição de melhora clínica, mas nem todos os estudos trazem parâmetros bem estabelecidos;
  • Rugas e rejuvenescimento – melhora das rugas e tônus da pele;
  • Estrias – resultados satisfatórios com redução da largura da estria.

Conclusão: PRP é uma modalidade de tratamento relativamente nova para rejuvenescimento facial. A maioria dos estudos utilizou outras terapias associadas, como lasers, radiofrequência e enxerto autógeno de gordura. Por isso, há a necessidade de ensaios clínicos controlados em que se testem comparativamente os diferentes tipos de gel de plasma, bem como seus resultados quando aplicados de forma isolada ou associada a outras terapias coadjuvantes.

Artigo original disponível em: https://bit.ly/2BQfXlN.

Avaliação da eficácia e segurança do gel de plasma pobre em plaqueta como preenchedor dérmico autógeno para rejuvenescimento facial

Doghaim NN, El‐Tatawy RA, Neinaa YME. Assessment of the efficacy and safety of platelet poor plasma gel as autologous dermal filler for facial rejuvenation. J Cosmet Dermatol 2019;1-9.

Por que é interessante: O gel de plasma ganhou popularidade em cirurgia plástica, cirurgia ortopédica, cirurgia oral e em vários outros campos. Este estudo avaliou a eficácia clínica e a segurança do gel como preenchedor dérmico para rejuvenescimento facial com intuito de superar as desvantagens potenciais do uso de materiais xenógenos ou mesmo de gordura autógena.

Desenho experimental: Estudo clínico sem grupo-controle. Trinta e quatro mulheres com diferentes graus de enrugamento facial e 18 com olheira foram tratadas com injeção de plasma gel. O plasma gel foi preparado a partir de 10 mL de sangue venoso coletado de cada participante em condições assépticas e colocados em um tubo de vácuo estéril (10 mL) com anticoagulante e então centrifugados em 320 xg, por 15 minutos a 4ºC, resultando em sobrenadantes divididos em três camadas: a camada inferior composta de glóbulos vermelhos, a camada intermediária composta de glóbulos brancos (a camada buffy) e a camada superior composta de plasma. A camada superior do plasma foi centrifugada novamente por mais cinco minutos a 1.000 xg para obter um plasma de duas partes: a superior composta de PPP e a inferior constituída do PRP. O PPP foi então suavemente aspirado e colocado em frasco de injeção estéril, tomando cuidado para não o misturar com PRP, e depois preparado para ativação pelo gluconato de cálcio com proporção de 0,01 mL por 1 mL de PPP. Esse PPP ativado foi dividido em cinco seringas de 1 mL e aquecidas em um instrumento com água quente a uma temperatura entre 60ºC e 100ºC por um minuto e, depois, resfriado a uma temperatura entre 8ºC e 0ºC por um minuto. Finalmente, o PPP foi transformado em um gel viscoso pronto para uso. Para detalhes sobre a técnica de injeção no sulco nasolabial e região infraorbital, veja artigo completo.

Os achados: Os resultados foram avaliados, quanto ao aspecto clínico, por meio de escalas de avaliação, bem como a homogeneidade da pele e textura. O paciente também revelou seu nível de satisfação com o procedimento. Em resumo, todas as mulheres relataram melhora clínica dramática imediata após injeção de gel de plasma. Notavelmente, todas as mulheres com rugas faciais relataram excelente melhora na aparência mantida por três meses após a última sessão de tratamento, levando o grupo de pesquisadores a recomendar a interferência precoce para rejuvenescimento facial. Os efeitos colaterais relatados da injeção de gel de plasma nos dois grupos foram mínimos e transitórios, incluindo dor leve, eritema, edema e hematoma pequenos.

Conclusão: Apesar do pequeno número de participantes de ambos os grupos estudados e a curta duração de acompanhamento (apenas três meses), os resultados sugerem que é uma técnica com baixo risco e ampla tolerância. Diferentemente do PRP, o PPP preparado neste estudo fornece um arcabouço de fibrina para que fatores de crescimento cheguem à área tratada. Com resultados iniciais promissores, estudos adicionais em um número maior de participantes, com período de acompanhamento longo, bem como comparações entre PRP ou PPP e outros tipos de preenchedores, são recomendados. Na verdade, sempre ao testar uma técnica é interessante ter um grupo tratado por material considerado padrão-ouro, neste caso, o ácido hialurônico.

Artigo original disponível em: https://bit.ly/2Wj5OHN.

Rubelisa Cândido Gomes de OliveiraRubelisa Cândido Gomes de Oliveira
Especialista em Periodontia – FOAr/Unesp; Mestra em Odontologia, doutora em Ciências da Saúde e pós-doutoranda em Periodontia – UFG.
Orcid: 0000-0001-9385-6569.