Lesões cervicais não cariosas e recessões gengivais

Lesões cervicais não cariosas e recessões gengivais

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Marcelo Faveri traz uma visão periodontal da questão das lesões cervicais não cariosas.

Vamos iniciar esta coluna com uma afirmação polêmica: “Nem todas as lesões cervicais não cariosas (LCNC) precisam ser restauradas, mas quase todas de alguma forma deveriam receber um procedimento de recobrimento radicular”.

Em nosso dia a dia clínico, observamos um aumento da prevalência de pacientes que chegam ao consultório com LCNC. Em sua definição, trata-se de uma lesão caracterizada pela perda de esmalte na região cervical do dente, sem envolvimento bacteriano1.

Normalmente, sua etiologia é multifatorial e pode ter início por erosão, atrição, abrasão ou abfração, dependendo da origem primária.

Dados da literatura descrevem que a prevalência destas condições na população pode chegar a até 67,8%, sendo que aproximadamente 50% dos pacientes também apresentam quadros de hipersensibilidade dentinária (HD)2.

Os caninos e os pré-molares são os dentes mais afetados. Em resumo, é um quadro clínico muito comum em nosso consultório odontológico, do clínico geral ao periodontista.

A questão é: como realizar o tratamento destas condições clínicas? Com certeza, o sucesso no tratamento da LCNC e da HD vai depender do conhecimento técnico-científico do profissional, o qual se baseia no entendimento da etiologia da lesão e na correta seleção da terapia mais adequada para o caso. Vale destacar aqui que a maioria destas LCNCs provoca, além da perda de tecidos duros do dente, a perda de tecidos periodontais importantes, incluindo migração apical da margem gengival e perda de tecido queratinizado.

A grande dúvida de muitos profissionais, independentemente da presença ou não da LCNC associada à HD, é se devemos realizar procedimentos restauradores na região cervical, a famosa restauração classe V, ou se podemos realizar um procedimento mucogengival de recobrimento radicular sem realizar a reconstrução do esmalte e da dentina perdida. Qual a melhor conduta clínica a ser seguida?

Antes de responder a esta pergunta, outros pontos devem ser analisados. Quantos de nós já ouvimos relatos como esses de pacientes em nosso consultório: “Doutor, eu tinha sensibilidade neste dente próximo à gengiva e foi realizada uma restauração. Depois de um tempo, notei que a gengiva subiu novamente e a sensibilidade retornou.

Neste momento, outro procedimento restaurador foi realizado.” Na verdade, em muitos casos, isso acaba sendo um círculo vicioso em que todos nós sabemos qual será o capítulo final.

Neste momento, vou adicionar mais um ponto nesta questão: quantos de nós analisamos o fenótipo periodontal (fino, médio ou espesso) dos pacientes que têm LCNC para decidir se iremos realizar ou não um procedimento restaurador? Quantos de nós observamos qual a faixa de tecido queratinizado presente no elemento com LCNC antes de decidir se iremos restaurar ou não? Seria isso importante?

Existem poucos dados na literatura sobre a relação entre as LCNCs e o fenótipo periodontal, mas por nossa experiência clínica, essa relação, em sua maioria, concentra-se em elementos dentais que possuem fenótipo fino e, muitas vezes, com ausência de tecido queratinizado na margem gengival.

Se me permitem mais uma afirmação baseada na experiência clínica sem evidências científicas, ao realizar um procedimento restaurador cervical associado a uma margem gengival com ausência de tecido queratinizado, ou na presença de um fenótipo periodontal fino, vamos ter grandes chances de ter progressão da recessão gengival. Ou você acha que seria diferente?

Em conclusão, do ponto de vista periodontal, todas as LCNCs associadas às recessões gengivais deveriam receber procedimentos mucogengivais de recobrimento radicular associados ao enxerto subepitelial. Sendo que o procedimento mucogengival pode ou não ser associado à restauração completa da lesão cervical, ponto este ainda em definição na literatura científica3.

Nossa experiência e preferência é que não seja realizada a restauração completa da lesão cervical, mas sim apenas a restauração da junção cemento-esmalte (JCE) perdida. Os estudos que compararam os procedimentos mucogengivais em dentes com LCNC que tiveram ou não a JCE restabelecida, reportaram melhores resultados clínicos quando ela foi restaurada, principalmente em relação às taxas de recobrimento, aos parâmetros estéticos e à maior diminuição da HD4-6.

Diante dessas informações, consideramos inaceitável a conduta clínica de nem restaurar e nem recobrir, e apenas preservar as lesões por meio de dessensibilizantes, visto que a dentina não é um tecido apropriado para se manter exposto na cavidade bucal, em função da sua fraca resistência à dissolução por ácidos e por ser um material de grande carga orgânica, que degrada rápido frente aos desafios orais.

Dessa forma, os cuidados mais importantes, em nossa opinião, são remover a causa e restabelecer a estrutura e a anatomia perdida, tanto do dente quanto do periodonto, e aproveitar tais oportunidades clínicas para modificar o biotipo periodontal. Vamos acabar com este círculo vicioso.

Referências

  1. Reyes E, Hildebolt C, Langenwalter E, Miley D. Abfractions and attachment loss in teeth with premature contacts in centric relation: clinical observations. J Periodontol 2009;80(12):1955-62.
  2. Yoshizaki KT, Francisconi-Dos-Rios LF, Sobral MA, Aranha AC, Mendes FM, Scaramucci T. Clinical features and factors associated with non-carious cervical lesions and dentin hypersensitivity. J Oral Rehabil 2017;44(2):112-8.
  3. Santamaria MP, Silveira CA, Mathias IF, Neves FLDS, Dos Santos LM, Jardini MAN et al. Treatment of single maxillary gingival recession associated with non-carious cervical lesion: Randomized clinical trial comparing connective tissue graft alone to graft plus partial restoration. J Clin Periodontol 2018;45(8):968-76.
  4. Zucchelli G, Gori G, Mele M, Stefanini M, Mazzotti C, Marzadori M et al. Non-carious cervical lesions associated with gingival recessions: a decision-making process. J Periodontol 2011;82(12):1713-24.
  5. Santamaria MP, Queiroz LA, Mathias IF, Neves FL, Silveira CA, Bresciani E et al. Resin composite plus connective tissue graft to treat single maxillary gingival recession associated with non-carious cervical lesion: randomized clinical trial. J Clin Periodontol 2016;43(5):461-8.
  6. Rasperini G, Acunzo R, Pellegrini G, Pagni G, Tonetti M, Pini Prato GP et al. Predictor factors for long-term outcomes stability of coronally advanced flap with or without connective tissue graft in the treatment of single maxillary gingival recessions: 9 years results of a randomized controlled clinical trial. J Clin Periodontol 2018;45(9):1107-17.

Marcelo Faveri
Marcelo Faveri

Especialista e mestre em Periodontia; Especialista em Implantodontia; Doutor em Microbiologia e Pós-doutor – Instituto Forsyth, Cambridge/EUA.
Orcid: 0000-0002-9830-1391.

 

Colaboração:
Maristela Lobo