Resinas compostas: o básico do básico

Resinas compostas: o básico do básico

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O que mudou no debate da resinas compostas ao longo dos anos? Luis Felipe J. Schneider traz detalhes da evolução e de sua utilização.


Apesar de inúmeros avanços no campo das formulações das resinas compostas – o nome correto é “compósito odontológico restaurador”, mas vamos manter a informalidade –, e das incontáveis diferenças entre os inúmeros fabricantes, o princípio do material é praticamente o mesmo desde a sua introdução, na metade da década de 1960.

Trata-se de uma “massa” composta por um “agregado” de material cerâmico (as partículas de carga) mantido aglutinado por meio de uma mistura de resinas à base de monômeros dimetacrilatos, que é a matriz resinosa. Como esses dois materiais não possuem compatibilidade química, é necessário que as partículas cerâmicas sejam tratadas antes de serem misturadas à matriz. Assim, as composições são banhadas em uma solução que, após a secagem, forma uma película extremamente fina, capaz de revestir cada uma das partículas e estabelecer uma real adesão química entre a “carga” e a “matriz”. Assim, temos o silano como agente que torna essa união possível.

Entretanto, considerando uma definição tão básica, o que mudou ao longo dos anos? De maneira simplista, podemos considerar as alterações nas partículas de carga ocorridas entre as décadas de 1970 e 2000, em que os materiais evoluem drasticamente em relação à resistência ao desgaste. Por volta da virada do milênio, puderam ser observadas algumas modificações na matriz resinosa, quando surgiram materiais denominados “baixa contração” (que não vingaram), resinas compostas autoadesivas (que ainda necessitam de muita evolução) e, mais recentemente, os compósitos “bulkfill”.

Apesar dos casos citados anteriormente, foi a transformação dos sistemas de iniciação, com a passagem dos materiais quimicamente ativados para os fotoativados, que mais impactou o cotidiano do clínico, nas décadas de 1960 e 1970. Com a ativação realizada primeiramente por fontes de luz ultravioleta, foi esta alteração que permitiu que o clínico tivesse maior controle sobre o processo de construção de uma restauração.

Porém, o uso das fontes ultravioleta trouxe consigo os inerentes problemas associados à exposição de irradiação ionizante e uma baixíssima capacidade de penetração no material restaurador e, assim, era necessário encontrar um sistema mais eficiente e seguro.

A partir da metade da década de 1970, surgiram as resinas compostas ativadas por luz visível de cor azul, com a adição de um sistema que combinava o uso de um fotoiniciador de cor amarela intensa, a canforquinona, com um coiniciador do tipo amina. Obviamente, alguns ajustes foram necessários ao longo dos anos, mas esse antigo sistema permanece extremamente útil até os dias de hoje, principalmente pela sua relativa segurança e capacidade de absorção de luz em grandes profundidades.

Neste momento, você deve estar se questionando: a substância amarela do fotoiniciador pode alterar a coloração da restauração? É fundamental entender que é justamente a coloração amarela da canforquinona que permite a absorção de luz azul, já que são cores opostas. Após reagir com o sistema coiniciador, esta molécula amarela altera a sua estrutura e torna-se incolor.

Considerando que você seja um clínico observador, poderá estar questionando sobre aquela alteração de cor que ocorre ao longo dos anos com as resinas compostas. Pois bem, além do processo de alteração do aspecto visual por fatores extrínsecos – como a absorção de corantes –, trata-se de um processo de oxidação de vários componentes que não apenas o sistema iniciador. Cabe a você retardar esse processo pela execução de procedimentos de ativação com uma boa fonte de luz, mantendo a posição correta e respeitando os tempos mínimos indicados pelos fabricantes.

Desconfie de procedimentos de ativação extremamente rápidos, com dez segundos ou menos. Tendo em vista que você possui em suas mãos um agregado cerâmico que precisa ser mantido unido pela matriz resinosa, lembre-se de que é fundamental que o processo de ativação seja executado de forma correta.

Somente assim o material maleável terá as partículas de carga estabilizadas com maior rigidez. E o que podemos dizer sobre os sistemas de adesão alternativos, que prometem fotoativadores de coloração amarelada menos intensa, mais eficientes etc.? Esse assunto será abordado em nossa próxima edição. Até lá!

Leituras recomendadas

  1. Cavalcante LM, Schneider LF, Hammad M, Watts DC, Silikas N. Degradation resistance of ormocer-and dimethacrylate-based matrices with different filler contents. J Dent 2012;40(1):86-90.
  2. Salgado VE, Rego GF, Schneider LF, Moraes RR de, Cavalcante LM. Does translucency influence cure efficiency and color stability of resin-based composites? Dent Mater 2018;34(7):957-66.
  3. Fonseca AS, Labruna Moreira AD, de Albuquerque PP, de Menezes LR, Pfeifer CS, Schneider LF. Effect of monomer type on the CC degree of conversion, water sorption and solubility, and color stability of model dental composites. Dent Mater 2017;33(4):394-401.

Luis Felipe J. SchneiderLuis Felipe J. Schneider
Professor associado – FO/UFF; Professor – Universidade Veiga de Almeida; Doutor em Materiais Dentários – FOP/Unicamp, OHSU, EUA; Pós-doutor em Biomateriais – Universidade de Manchester/Inglaterra; Pesquisador Faperj.
Orcid: 0000-0002-7154-8845.